Quinta-feira, Novembro 04, 2004

A day in the life!

Flutuo levemente por um céu azul, com um vento suave me carregando por entre as nuvens de algodão. O Sol brilha intenso e os pássaros me acompanham neste vôo tranqüilo e relaxante, é quando de repente sou arrebatado em direção ao chão escutando o tema do Missão Impossível... Claro, já são 6:30, o despertador do meu celular começa a berrar a musiquinha maldita (que ao menos é polifônica), olho para os lados, não sei onde estou, não sei quem sou, apenas consigo visualizar o celular e pensar “muito apropriado, missão impossível hein”...

Levanto relutantemente, tudo está tão quente na minha cama, vou cambaleando até o banheiro, passo por alguém, mas como não consigo destinguir formas, cores ou cheiros neste primeiro instante após o torpor noturno, passo batido e fecho a porta. O pijama azul desbotado agora parece uma camisa de força impossível de se retirar, muitas tentativas são feitas antes de efetivamente eu conseguir me despir e entrar no box.

Abro a torneira, CARALHO, que água gelada, preciso lembrar de mandar alguém concertar essa droga de chuveiro. Depois de alguns segundos a água esquenta e finalmente me atiro embaixo de líquido tão reconfortante e regenerador. Termino o banho 15 minutos depois de começar, ok ok, eu sei dos problemas de água de nosso planeta, mas convenhamos, eu precisava acordar...

Abro o box e CARALHO, como ta frio, pego a toalha e começo a me enxugar, quando termino me dou conta que esqueci toda a minha roupa no quarto, terei que ir pelado até lá, enfrentando o frio e as intempéries. Tomo coragem, respiro fundo e lá vou eu, correndo pelado pelo corredor do apartamento. Finalmente me troco, os meus cinco sentidos já estão funcionando corretamente agora, percebo que o “alguém” com quem cruzei antes de entrar no banho era meu pai, ele olha pra mim com aquela expressão paterna, eu fico aqui esperando um bom dia e recebo um MULEQUE MAL EDUCADO, ACORDA E NEM FALA BOM DIA... Já expliquei muitas vezes a minha situação semi-morta quando acordo para ele, mas ele insiste em não compreender.

Encho o copo com aproximadamente 400ml de leite de vaca, misturo ao meu achocolatado preferido e pronto, o café da manhã dos campeões. Pego a minha bolsa preta com a inscrição “biologia” bordada em branco e saio em direção ao primeiro ponto de ônibus do dia. São longos e tenebrosos minutos esperando o “mercedão”, está frio, está chovendo e quando finalmente o ônibus chega, a dor duplica. Tudo está muito apertado, abafado e invariavelmente fedorento, mas DEUS, são 7:00 da manhã, como alguém pode estar fedendo à uma hora dessas? Não sei, essa é mais uma daquelas perguntas do tipo “por que a torrada sempre cai com o lado da manteiga para baixo”.

São mais 20 minutos de sofrimento até o terminal de trolebus, passo o bilhete e rodo a catraca. Posiciono-me em frente ao ponto esperando o próximo carro passar, não tem ninguém aqui, um verdadeiro deserto... Melhor assim, posso escolher aonde vou sentar. O ônibus então chega e abre suas portas, é quando alguém decide abrir as portas do inferno e uma legião de demônios feitos exclusivamente para sentarem em seu lugar no ônibus surge e, correndo, me atropelam.

Aqui estou, em pé, à quase 20 minutos dentro deste trolebus maldito cheirando “avanço” do rapaz ao lado. Finalmente um lugar aparece, ando na direção do assento e, sim, eu consegui, sentei... É quando uma senhora de uns 60 aos olha pra mim e diz que idoso tem prioridade... Ok minha senhora, pode se sentar, um dia terei sua idade.

O tempo passa e finalmente consigo me sentar, pego o meu livrão de 800 páginas contando a vida de Darwin e começo a ler, na terceira linha já estou dormindo feito um porco, batendo a cabeça no vidro da janela. Ridículo, mas não tanto quanto o motorista te sacudindo para que você desça, opa, já estamos no ponto final? Ok, brigadão moço...

Muito bem, mais um ônibus e pronto, cheguei ao CEU, ou seria o inferno? Subo as escadas do bloco cultural, antes do terceiro lance já contei quatro catarradas no chão, e ainda são 9:00 da manhã. Chego finalmente à administração, todos estão com cara de bosta por que a Marta perdeu a eleição, é, eu sei, eles vão perder o emprego, eu também, mas e daí? O que realmente irrita é esse concursado mané tirando sarro de todo mundo por que ele, justo ele, seguirá firme e forte em seu empreguinho medíocre...

O dia passa, devagar, MUITO devagar e CARALHO, eu já mencionei que está muito frio?
Hora do almoço, ligo para o local que entrega marmitex, "Cantina da Lia" diz uma voz mal humorada do outro lado do telefone, "Oi, gostaria de pedir um almoço aqui pro CEU" digo eu amedrontado. "Vai querer o quê? Tem contra-filé, filé de frango e bisteca", e eu prontamente respondo "Quero bisteca e por favor, sem feijão". Desligo o telefone e aguardo 30 longos minutos até que o motoqueiro chega com a marmitex. Vou feliz e contente comer, o cheiro da comida invade o ambiente e faz o meu estomago se transformar em um enorme monstro glutão, começo a comer, cada mordida que eu dou, é menos uma memória ruim desse dia maldito... Vou comendo tranqüilamente quando... CARALHO, feijão, odeio feijão, e aquela vaca do telefone sabia disso, além de colocarem o feijão ainda esconderam no fundo da marmitex, só pode ser brincadeira...Perco a fome completamente.

Finalmente são 17:30, hora de ir embora. Pego novamente minha mala e vou em direção ao ponto de ônibus aonde um maldito filho de uma égua vai enfiar a cabeça para fora de uma van e gritar “TERMINAL SÃO MATEUS AEEE, QUEM VAI, QUEM VAI, TERMINAL SÃO MATEUS”. São mais três conduções até a faculdade, o sofrimento de ficar em pé sentindo o agradável odor primavera-verão se repete em cada um dos três ônibus. O celular vibra, o tema do Mario Bros ecoa por todo o ônibus, atendo e uma voz do outro lado diz “Olá, aqui é o prefeito Willian Dib, obrigado pelos vot...”, desligo, não votei nesse camarada e, portanto não to afim de ouvir agradecimentos.

Chego finalmente ao local sagrado do saber, entro na sala de aula e aguardo... aguardo... aguardo... A professora da primeira aula faltou. Deus, por quê? O que eu fiz? Esperei o dia todo por esta aula e a professora falta, o pior é que outra professora não pode adiantar a aula dela e eu tenho que ficar aqui, sem fazer nada, ouvindo esta cambada de pseudo-intelectuais que estudam comigo dizendo que o Serra foi o melhor ministro da saúde... Alguém me mate, por favor.

Então chega o intervalo, aguardo na sala de aula por que estou com preguiça demais para ir até a cantina mais próxima. A professora entra, vocês não podem calcular como uma aula de estrutura do ensino com uma professora que fala igual ao Seu Creyson pode ser torturante, os minutos rastejam, insistem em não passar...
Finalmente tudo acaba, o retorno ao lar é mais agradável afinal, pego carona com a minha irmã. Porém, quando digo mais agradável, não quero dizer realmente agradável, quero dizer, menos sofrido... Sou obrigado a ir da faculdade até a minha casa ouvindo a melhor seleção de pagode que poderia tocar em uma rádio às 22:30 da noite, o lado bom disso é que ao menos minha irmã não gosta de música gospel.

Chego em casa às 23:00, o estado de torpor já começa a me atormentar, caminho em direção ao banheiro, retiro a roupa e entro no box... CARALHO, maldita água fria... Termino o banho, me enxugo e mais uma vez me dou conta que esqueci de pegar a roupa, corro pelado outra vez pela casa, visto o pijaminha azul desbotado e volto para a cama.

Em segundos já estou novamente flutuando no céu azul com vento suave, me carregando por entre as nuvens de algodão, feliz e contente até que... Não, outra vez não... Muito, muito apropriado de fato.