Segunda-feira, Março 07, 2005

Em boca fechada...

Não sei bem o que acontece comigo, mas às vezes perco a oportunidade de ficar de boca fechada. E esta mania de falar demais, ou de falar sem observar as pessoas a minha volta, está colocando minha vida em risco...


sexta-feira – Por um acidente (ou por obra do Canhoto) o sagüi invadiu o recinto dos papagaios (lá no parque onde faço estágio) e se atracou com um deles. Nada demais. Resultado da briga: um sagüi com raiva de papagaios e um papagaio careca. Detalhe: eu NÃO estava lá.


segunda-feira – Chego para o meu estágio. Faço uma visita ao papagaio Kojac e em seguida dirijo-me à sala dos cursos, onde um amigo meu ministra uma palestra sobre jardinagem. É intervalo. Ele sai da sala e recebe-me com um caloroso abraço. Após alguns minutos de conversa ele pergunta sobre o papagaio:


- Está tudo bem com ele – respondo

- E o sagüi, se machucou também?

- Não, este “safadinho” está ótimo. E se tivesse se machucado, quem mandou invadir a “casa alheia”? – e dei um inocente sorriso


Sinceramente, não sei porque tenho que abrir minha boca. Mal acabo de proferir estas palavras vejo uma senhora vindo em minha direção. Seus olhos brilhavam de ódio. Espere, não é UMA senhora, são VÁRIAS! Minha nossa, uma legião de donas de casa olha pra mim com rancor...

O ódio estava estampado em seus rostos. No peito, traziam um crachá com a seguinte inscrição: PUTA (Pessoa Unidas Trabalhando pelos Animais). Dedos inquisidores apontavam em minha direção. Foi então que sua líder bradou:


- Não posso crer! Como ousas?? Culpando um pobre sagüizinho inocente?! O animal não tem culpa!

- Mas senhora... não... não foi o que eu quis dizer. Sei que ele não tem c...

- Não foi o que quis dizer?? Ah não?! Mas foi o que disse! Eu ouvi muito bem! Por acaso chama-me surda??

- Não, de forma alguma eu apenas...

- Apenas nada! Mereces a fogueira, e eu como “amiga dos animais” - leia-se PUTA - (Pessoa Unida Trabalhando pelos Animais), irei mandá-la para lá!


Neste momento minhas pernas tremeram, o medo tomou conta de meu corpo. Olhei ao redor: estava cercada por senhoras más, com crachás pendurados no pescoço e cintas na mão. Uma delas tinha uma palmatória, a outra um punhado de milho. E a líder delas, trazia em uma mão feno e uma caixa de palitos Fiat Lux na outra.

Não sei de onde tirei forças, mas em um ato heróico, quase sobre-humano consegui passar por entre elas e correr. Corri o mais que pude e finalmente cheguei até meu coordenador de estágio. O homem, de barbas e cabelos longos, me recebeu com um sorriso acolhedor. Como por mágica, o medo sumiu e me senti novamente segura.

Com toda a coragem de um verdadeiro líder, munido de um pedaço de cabo de vassoura e trajando um avental azul (estilo metalúrgico) ele enfrentou a legião maligna.Foram horas de batalha árdua, mas finalmente ele conseguiu vencer e abrir caminhos com a ajuda da razão e do bom-senso. Retornando exausto da guerra, ele olha em meus olhos e pede caridosamente:

- Natália, por favor, da próxima vez tenha mais cuidado com o que fala. Ao menos olhe quem está próximo a você. Por caridade.


E foi assim que quase fui queimada, apenas por fazer um inocente comentário. É como se aprende com a sabedoria popular:" Em boca fechada, não entra mosca”