Genese.
O quão verdadeiro é o que falam sobre o destino? Essa idéia nunca passou pela cabeça Dele. Uma vida racional era o que Ele mais buscava. Uma vida que pudesse ser prevista e controlada. Uma vida segura , dizia.
Em outros tempos, nada parecido seria sequer cogitado. Mas tudo havia mudado. Ele tentou encontrar uma explicação racional, teoria do caos, efeito borboleta. A ciência não parecia funcionar agora. Justo ela, que sempre deu as respostar que Ele sempre ansiou em saber.
Hoje Ele ainda pensa no começo de tudo. Uma noite, fria, sem graça, praticamente preta e branca. Uma festa? Sim, acho que era isso, uma festa. Já não se lembrava o que comemoravam. A comida não tinha gosto, os sorrisos pareciam gotas que caem em uma caverna, ecoavam sem que se pudesse definir de onde e para aonde.
Foi quando Ela apareceu. Ele não a notou de imediato, na verdade, Ela parecia se confundir na paisagem. Nada de mais, só mais alguém. Mas logo o brilho que a envolvia lhe chamou a atenção..
E o brilho contagiava. O que quer que Ela iluminasse, se transformava em algo tão absolutamente colorido que mal pode ser descrito. Sua voz provocava transformações ainda maiores, a cada letra proferida, uma lembrança ruim desaparecia. A paisagem, antes morta, agora pulsava de vida e alegria.
Ele já não lembrava o que o incomodava, Ele já não se importava com respostas, Ele já não ligava para o futuro. Tudo o que queria era o momento, o agora. Tudo o que queria era que aquela nova realidade durasse para sempre, tudo o que Ele queria era que a vida dele se enchesse com todas as cores trazidas por Ela.
Mas logo ele percebeu o quão cruel a realidade pode ser. O tempo passou, passou como se horas virassem segundos. E Ela partiu, levando consigo toda a transformação que O encantara. No entanto, algo permaneceu, um calor, dentro do peito. E foi esse calor que o motivou a ir em busca das cores e da vida novamente.
Ele mal podia se conter quando finalmente conseguiu manter contato com Ela. Ela o tratava como um igual, mas ele se sentia inferior, como se o próprio criador do Universo estivesse dirigindo à palavra a Ele. Essa era a única explicação que Ele imaginava para explicar tamanha fascinação que Ela provocava. Ela não podia ser desse mundo. Mas era.
Deitado em sua cama a noite, Ele ainda questiona o que faz um ser tão maravilhoso se envolver com alguém tão mundano, comum, normal. Deitado em sua cama, passando os dedos em seus lábios, Ele ainda lembra do beijo Dela.
Na verdade, Ele pouco entende o que se passou durante aquele beijo. Ele só lembra de quão macio aqueles lábios eram, do quão impossivelmente doce era seu gosto.
Beijá-la era como presenciar a criação, era como ver as primeiras porções de terra surgindo, como sentir a chuva que formou os primeiros mares e rios caindo suavemente em seu rosto, era sentir o calor dos primeiros raios de Sol, era sentir o cheiro das primeiras flores do mundo, era como sentir o vento suave que passava pelas asas das primeiras aves.
Foi quando Ele finalmente entendeu, o beijo que recebera era de fato o toque da criação. O toque que criou dentro Dele algo maior que a própria necessidade de viver. Algo maior do que um simples jogo de palavras pode descrever.
Ele ainda não sabe o quão verdadeiro é o que falam sobre o destino, ele ainda não sabe qual será o seu futuro e se Ela estará nele. A única coisa de que Ele tem certeza é que aquele beijo provocou uma mudança tão profunda em seus valores que ele finalmente entendeu sua pequenez, sua insignificância e sua falta de capacidade em ser o que Ele sempre pensou que fosse.
Dono da própria vida.




