Domingo, Novembro 27, 2005

Após o amor.

Amei, amei mas me enganei. E como todos que percebem a cruel e aterradora verdade, sofri. Não pela perda do amor, mas pela perda da cegueira que este incute em nós. A cegueira do amor é a maior benção que este sentimento trás, esconde a real natureza do que nos encanta.

E o amor se foi, ceifado pela imaturidade, derrotado pelo individualismo, escarrado pelo egocentrismo. E deste amor, o que sobrou foi o asco que sua imagem provoca, a náusea de seu cheiro e o azedume de sua saliva.

O gosto amargo como cera de ouvido de sua pele ainda impregna minha boca, o toque ácido de suas mãos ainda corroe minha pele e sua voz insuportavelmente irritante liquefaz meu cérebro.

Muito embora eu ainda sinta sua repugnante presença em meu interior, não mais sofro por seus distúrbios psicológicos. Não sinto mais pena de sua falta de tato em tratar a realidade, apenas o desgosto por sua existência restou.

Não ache amor que eu a odeio, não tenha pretensões de que eu ainda gaste meu tempo desenvolvendo algum tipo de sentimento por você, apenas considero a infelicidade que foi um dia amar alguém tão miseravelmente medíocre.

E se a raiva a toma, lembre-se que foi você quem subverteu meu amor. Foi você quem superestimou sua importância em minha vida. Foi você quem acreditou que eu trocaria meu caráter e minha personalidade por sexo executado com excelência.

Sigo então a meu caminho, livre de suas sandices e exigências. Deixo para trás o fétido pântano de nosso amor e entro na floresta do desconhecido. Parto na esperança de encontrar o verdadeiro amor, que irá de fato acrescentar algo à minha vida, o amor que irá de forma conclusiva, mostrar que você jamais passou de um verme pestilento, consumindo minhas entranhas e envenenando meu coração.

Amei, amei mas me enganei.

Da série "Dói, fere & dilacera"

Domingo, Novembro 20, 2005

Lembranças

Chovia. Não mais tinha ganas de ler, estudar ou ouvir música. O único som que agora entrava em minha cabeça era a voz DELE, a risada DELE, os sussurros DELE. Olhei o relógio, apaguei as luzes e sentei no sofá a olhar os pingos caindo no jardim...

Fechei os olhos. Por um instante não mais estava ali. Por alguns momentos estava nos braços DELE, vivendo tudo outra vez. Olhando aquele olhar...

Um olhar diferente, cheio de ternura e ao mesmo tempo receio. Receio de ter errado tanto, que não mais pudesse ser consertado, de ter errado tanto que não mais pudesse ser perdoado.

E foi ali, naquele olhar que percebi que eu era capaz de perdoar. Foi ali que percebi que meu coração ainda batia, que não estava morta. Como podia eu negar-lhe o perdão? Como podia eu trair a mim mesma? Não, não podia.

E os dias se passaram como se fossem horas, segundos...

E, naqueles instantes eu me fazia mulher, senhora de meu pequeno feudo. E, em meus braços ELE se tornava menino. Frágil e indefeso, à mercê de minhas vontades e caprichos. E nessa inversão de papéis, nessa mistura de sentimentos e sensações nos perdemos. Nos perdemos e nos achamos. E nos descobrimos um só.

E já esse UM não mais pode voltar a ser dois. Já não mais me pertencem o coração e o sorriso. São DELE. Entreguei-os a ELE sem pensar. Não quero pensar. Quero apenas sentir...

Sentir que estou viva, estremecer com cada toque, ou mesmo com a recordação de cada toque. Deixar-me render apenas com um olhar, com um gesto. Dormir ao som de um sussurro. Aprender a despertar sem sobressaltos. Aprender a despertar preguiçosamente com uma carícia. Aprender a viver...

Viver uma vida que, talvez, não seja mais de minha guarda. Uma vida que agora é DELE. Só DELE.

Gotas mais fortes despertam-me de meu devaneio. Não importa. Já não necessito de Morfeu, como outrora, para senti-lo. Não é outro sonho ou desejo, agora é real. Não são mais alucinações, são...

LEMBRANÇAS.

Quarta-feira, Novembro 09, 2005

O Deus heterossexual

Trabalhar em shopping é garantia de ver todo tipo de coisa. E é justamente por isso que nem todo mundo está apto a trabalhar nesse tipo de lugar.

Algumas pessoas são preconceituosas de mais para aguentar uma exposição tão nua e crua do que é o mundo real. Especialmente as que justificam seu preconceito em dogmas ultrapassados sustentados por religiões incapazes de entender o sentido mais amplo de seus próprios fundamentos.

É o que infelizmente acontece com uma ótima pessoa que trabalha em frente ao local aonde eu trabalho. O shopping fica próximo a uma escola e vez ou outra um casalzinho de lésbicas ficam namorando próximo ao local aonde fico.

Confesso que da primeira vez que vi, fiquei um pouco chocado, mais pela idade das meninas (uns 16 anos) do que pelo fato de serem lésbicas. Depois, pensando melhor, percebi que era bobeira da minha parte.

No entanto, aquela senhora que comentei acima ficou horrorizada. Em primeira instância ela colocou a culpa no diabo, depois o ódio dela foi progredindo até o momento em que ela ficou hostil o suficiente a ponto de desejar que ambas queimassem no inferno.

A justificativa dela era de que Jeová não admitia tamanho desvio, ficou a beira de admitir o heterossexualismo de Deus.

A minha própria experiência mostra a inutilidade de se argumentar com pessoas assim, então me ative a um simples "elas não estão fazendo nada a ninguém".

De qualquer forma pensei comigo, se o Diabo é a representação do ódio, da violência e da maldade, como é possível observar o amor e o carinho que elas demonstravam uma com a outra e ainda atribuir isso ao Cramunhão?

Da mesma forma, como assumir o ódio e o preconceito daquela senhora como algo vindo de Deus?

Ou Deus não é tão perfeito quanto parece, ou o Diabo é mais esperto do que aparenta. Prefiro acreditar na esperteza do Diabo, usando o nome de seu concorrente para disseminar seus ideais.

Hades, depois de ter tido um surto humano voltando à programação normal!