Quarta-feira, Maio 03, 2006

De como ele chegou ao Tártaro...

O texto não é meu, mas como fala de como a luz dos meus olhos chegou até mim, estou postando-o aqui...

Um instante de vida


Ínfimo diante dos grandes deuses. Completamente despreparado para uma luta contra qualquer dos mais fracos habitantes do Olimpo. Um pequeno pedaço de nada, diante do poder do menor dos menores senhores da vida. Assim era nosso herói. Um rosto sem traços, um corpo deslizando nas sombras, um homem sem nome. Alguém que buscou sua felicidade por toda vida e a descobriu no colo de uma deusa.

Sua audácia justificava-se na pura necessidade de amar. Na vontade de realizar seu desejo, mesmo que lhe custasse a própria vida. Disposto a entregar corpo e espírito, repetiu a si mesmo, antes de partir: “E de que vale a minha vida, se não posso sentir sua respiração junto de mim? Por que viver se não por ela?”

Um homem sem destino, pois este já o abandonara há dias, quando havia tomado sua teimosa decisão de desafiar o poderoso Hades. Descer ao inferno, andar sobre as rochas incandescentes e se perder em meio as cavernas do Tártaro, lhe parecia um preço ridículo a se pagar pelo amor de Perséfone. Queimar sua alma no fogo da insanidade não seria pior que viver sem o olhar de sua deusa.

Um dia Hades a tomou de Zeus. Nosso herói estava convencido de que a tomaria em seu braços e a beijaria. Um segundo. Era tudo que ele queria. Um segundo e sua alma aquiesceria em mergulhar num poço de lava ou mesmo em ser aprisionada e chorar eternamente lágrimas secas, fagulhas ardentes nas cavidades que outrora carregaram olhos brilhantes e cheios de vida. Enquanto Hades detinha o poder e a sagacidade, esse homem tomado pela loucura, conhecia apenas sua própria e estúpida coragem e nada mais.

Perséfone detinha a beleza deslumbrante que era capaz de cegar até mesmo um semi-deus, o que dizer então de um simples ser humano? No entanto ele se achava digno daquele divino amor, porque o sentia por todos os lados e com tal intensidade, que se deixou levar ao que seria o seu fim. Caronte foi além de condutor, testemunha de sua viagem até os domínios do invisível.

“Não há vida sem o teu olhar. Não há música sem tua voz. Sem tua pele, não tenho serventia para minhas mãos. Para que meus lábios se não posso sentir a maciez de sua boca? Deixe-me vê-la Perséfone! Deixe-me sentir o frescor de seu hálito soprando-me a vida da qual nunca vivi. Permita-me olhar teu corpo, saciar meu desejo, mesmo que no instante seguinte eu seja enviado para o sofrimento eterno, sob o açoite de Hades. Seja minha para sempre, mesmo que seja apenas em minha mente. Perséfone... Me tome como seu. Que Hades me mate, decrete meu fim, mas que não me prive desse momento. Amo-te como nenhum deus jamais te amou ou amará. Tenho-te em minha carne, em meu sangue e em minha própria essência. Nasci para te amar e se te amar não puder, que me ceifem a vida em troca de um segundo que justifique minha passagem pela terra.”

E essas foram as últimas palavras de nosso herói. Uma prece feita ao seu grande e único amor. Uma súplica de vida e de morte. Ele havia nascido para amá-la e amando estava, quando deu seu último suspiro em vida, nos braços de Perséfone.

Nunca mais se soube de seu paradeiro. Dizem que Hades não teve compaixão, mesmo porque, esse sentimento nunca lhe foi familiar. Bafos quentes vindos do subterrâneo, trouxeram a notícia, ou talvez seria melhor dizer a lenda, que naquela noite, por um pequeno instante, as trevas cederam lugar ao brilho intenso de um sorriso que iluminou até mesmo os cantos mais longínquos e profundos do Tártaro. E que a voz de Perséfone se fez ouvir em um canto de inimaginável beleza.

por Marcelo Amado

6 comentários:

At 11:23 PM, Blogger Perséfone said...

E eu, soberba e egoísta em minha divindade, roubei aquele homem para mim. Fiz-me senhora de seu destino e luz de seus olhos. Sou hoje dona de sua voz e de seu coração. E nunca mais vou devolvê-lo.E quando for chegada a hora de eu deixar o Tártaro para novamente estar junto a minha mãe, levarei aquele homem comigo, preso para sempre pelos grilhões do meu amor...

 
At 11:37 PM, Blogger B. said...

Por Zeus! Se algum dia deus, semideus ou mortal me amar assim, dele será meu coração e meu corpo até a eternidade...rs.
Promessa!

 
At 12:37 AM, Blogger Hades said...

Hmmm... Bom saber... Bom saber...

 
At 4:56 PM, Anonymous Anônimo said...

Excellent, love it!
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At 6:11 AM, Anonymous Anônimo said...

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