Sexta-feira, Abril 21, 2006

Maiclê

Engraçado como às vezes desejamos coisas boas às pessoas que nem sequer conhecemos. Maiclê me provoca isso toda vez que a vejo. Quem é ela? Na verdade é ele. Ou não...

Maiclê é um travesti muito, muito pobre. Deve ter em torno de 38/40 anos, talvez seja mais nova e as doenças a deixaram mais velha. Morena, cabelos curtos, por vezes loiro, por vezes castanho escuro (queimado de tanta tintura), com olhos pequenos e bem escuros, rosto judiado e manchado com tons arroxeados, as verrugas dão uma aparência ainda pior a ele. Os dentes, ela só tem os de baixo, que insistem em ficar para fora dos lábios quando ela deixa a boca entre aberta.

Não me lembro bem quando conheci Maiclê. Mas creio que faz uns quatro anos, na época em que eu era voluntária no hospital municipal. Na verdade, quem disse que me viu no hospital foi ela mesma, na primeira vez em que nos falamos, em um fim de tarde, quando eu chegava em casa:

- Moça, por favor. Não precisa ter medo não. É que... Sabe, eu não gosto de pedir, mas não tenho dinheiro, estou com fome, você não teria um copo de leite?

- Bem, estou chegando agora. Mas verei o que posso arranjar.

Entrei, peguei o maior copo que tinha e como estava calor, enchi de leite gelado e misturei Nescau. A mesa estava posta, sinal de que acabavam de tomar café. Fiz dois lanches de pão com maionese e mortadela e levei até o portão. Quando Maiclê viu os lanches, seus olhos brilharam. Comeu aqueles pães como se fizessem parte de um banquete, e me agradeceu interminavelmente:

- Obrigada moça, muito obrigada!

- Nada, não foi nada. Ainda tem fome? Quer mais?

- Não, obrigada. Deus lhe pague.

Nos despedimos, mas antes de ir embora ela me olhou...

- Já vi estes olhos bonitos antes...

- É mesmo? Onde?

- Não sei. Mas já vi.

- Hmmm... Você esteve nos hospital recentemente? Sou voluntária lá.

- Sim, estive. É, é mesmo!!! Você é uma “daquelas moças de rosa!”.

Trocamos mais algumas palavras, eu disse meu nome, ela o dela e depois nos despedimos.

Passados uns dois meses, ao chegar em casa, minha mãe estava meio assustada. Perguntou onde e com quem eu estava andando, disse que “um travesti muito feio” tinha vindo me procurar.

Eu ri e contei a história, provavelmente ela queria comida outra vez. Minha mãe também sorriu, nesta época, muitas “pessoas estranhas” sabiam meu nome e vinham me abraçar quando me encontravam na rua. Mamãe já estava até se acostumando, só ficou meio receosa porque foi a primeira vez que tocavam a campainha de casa.

Nunca mais vi Maiclê. Saí do hospital, entrei na faculdade e segui minha vida. No início do segundo ano de faculdade, fui ao cinema com o Hades. Quando ele me deixava na porta de casa, eu não encontrava a chave, por isso permaneci um tempo dentro do carro. Maiclê chegou de repente. Até nos assustou um pouco. Tinha os olhos tristes, tinha fome. Como certamente não havia nada em casa, eu disse que infelizmente não poderia ajudá-la, e que também não tinha dinheiro (o que era verdade). Hades então tirou, o troco do cinema da carteira, se não me engano seis reais e entregou a ela. Nossa, como Hades foi abençoado aquela noite!!

E mais uma vez Maiclê “tomou um chá de sumiço”. Um ano depois, por volta das 17h, quando abria meu portão, vi um corpo magro correndo em minha direção. Notei também que o guarda noturno estava pronto para impedir. Fiz um gesto negativo para ele e deixei Maiclê se aproximar:

- Oi moça bonita! Hoje eu não vim pedir nada, vim apenas me despedir. Consegui uma vaga em uma instituição para aidéticos no interior de SP. Estou indo amanhã. Vim agradecer e desejar que Deus a abençoe sempre. E que Deus abençõe também seu companheiro, aquela noite eu comi graças a ele...

Beijou meu rosto, me abraçou e foi embora. Fiquei um tempo parada, observando aquele montinho de ossos se afastar e pensando: “Nossa, ela ainda se lembra do Hades, já faz mais de um ano!” Quando estava abrindo meu portão, notei que alguns vizinhos e o guarda noturno me olhavam espantados. "Danem-se", pensei eu.

E nunca mais vi Maiclê. Ontem, ao chegar ela reapareceu. Incrivelmente mais magra, com o rosto mais manchado. Foi transferida da instituição porque a tuberculose piorou e ela precisava de um lugar com mais recursos. Teve alta e precisava voltar para o interior. Novamente tinha fome. Minha vó estava fora, provavelmente eu teria de almoçar um miojo. Dei os únicos quatro reais que eu tinha na carteira. Ela me agradeceu com os olhos cheios de água, me beijou, abraçou, disse que eu estava ainda mais bonita, e desejou que eu fosse sempre abençoada.

Não conheço Maiclê. Não sei se ela roubou, matou, agrediu, usou drogas. Não sei se mata, se rouba, se agride, se usa drogas. Não sei se um dia vai chegar e me assaltar, prefiro pensar que não. Não sei, e nem quero saber. Só sei aquilo vejo. E vejo uma pessoa para quem o Estado não dá as mínimas condições de saúde e alimentação. Uma pessoa sem família, para quem as pessoas olham com repulsa e medo. Alguém sem futuro e que certamente não faz questão de lembrar do passado. Alguém que não se esqueceu de míseros seis reais dados em uma noite qualquer, e que ainda se lembra “dos olhos bonitos” que lhe ofereceram um pão um mortadela.

Sei que Maiclê jamais lerá isso, mas desejo a ela pouco sofrimento, e uma vida mais digna no caminho que ainda lhe resta percorrer...